INTRODUÇÃO
Um ano após a
notificação do primeiro caso de SIDA num homem adulto em 1981, foram
notificados ao CDC os primeiros casos
de SIDA em mulheres e crianças. Em menos de uma década, a SIDA tornou-se a
maior causa de morte em mulheres com menos de 45 anos de idade e em crianças,
entre o primeiro e o quinto ano de vida. A transmissão mãe-filho é a principal
via de infecção VIH em crianças e jovens com menos de 15 anos de idade. Dos 5
milhões de crianças infectadas, cerca de 90% nasceram no continente africano. A
transmissão pode ocorrer no útero, principalmente no último trimestre de
gestação, durante o desenvolvimento do trabalho de parto e na fase de expulsão,
ou inclusivamente após o nascimento, por ingestão de leite materno. Na ausência
de qualquer intervenção preventiva, o risco de transmissão da infecção VIH-1 a
uma criança nascida de mãe infectada, pode variar entre 15% a 25% nos países
industrializados e de 25% a 35% nos países considerados em vias de
desenvolvimento. Estas diferenças podem ser explicadas pela frequência e
duração do período de amamentação.
Contudo, nos
últimos anos, o espectro da infecção/doença pediátrica por VIH foi visivelmente
melhorado. Um dos maiores avanços no combate à infecção foi a prevenção da
transmissão mãe-filho do VIH através da implementação de medidas, clínicas e
terapêuticas específicas, na grávida infectada e no recém-nascido, no sentido
de evitar a transmissão do vírus1. Em países onde existe acesso a
fármacos anti-retrovíricos, a administração de regimes terapêuticos que provaram
ser eficientes, tem permitido reduzir as percentagens de transmissão para
valores inferiores a 2%. A prática introduzida do rastreio de anticorpos
anti-VIH em grávidas, conduziu também ao declínio na transmissão da infecção
VIH, possibilitando nestas mulheres um tratamento precoce e cuidados especiais
de saúde. Porém, apesar do aparecimento de diferentes opções terapêuticas na
última década e das várias medidas preventivas adoptadas, a transmissão
mãe-filho do VIH continua a ocorrer em países desenvolvidos.
Um diagnóstico
precoce da infecção VIH num recém-nascido é considerado essencial, pois permite
a implementação adequada e em tempo oportuno, de uma estratégia clínica para reduzir
a probabilidade de aparecimento de sintomas e imunodeficiência nos primeiros
anos de vida destas crianças. Recomendações do CDC salientam a necessidade de detectar a presença de VIH em
recém-nascidos de mães infectadas através da utilização de técnicas de cultura
ou de pesquisa de ácidos nucleicos2,3. Apesar da cultura ter sido
inicialmente recomendada, foi rapidamente substituída na prática, pela técnica
de PCR (polymerase chain reaction) para
detecção do DNA proviral do VIH (vírus integrado no genoma celular), sendo este
um ensaio válido e adequado, de maior sensibilidade e de resposta mais rápida para
o diagnóstico precoce da infecção4,5. Esta técnica é actualmente
considerada gold standard para o
diagnóstico da transmissão mãe-filho do VIH.
Desde 1992 que o
Laboratório de Referência da SIDA utiliza, neste âmbito ensaios para pesquisa
de DNA proviral do VIH-1 e VIH-2, como metodologias de eleição. Com base no
conhecimento sobre a elevada diversidade de vírus em circulação na população do
País6, o algoritmo experimental foi alterado e implementado após
1998, pela inclusão do estudo prévio de uma amostra materna, no sentido de confirmar
se os primers utilizados na reacção
de amplificação são potencialmente capazes de detectar o vírus ao qual a
criança foi exposta. Este procedimento laboratorial, recomendado cinco anos depois
nas guidelines publicadas na Communicable Disease and Public Health7,
pode reduzir o risco de resultados falsos negativos, quer pela ocorrência de primer-template mismatches8,9
devida à diversidade genética dos vírus, quer pela profilaxia pós-exposição que
atrasa o aparecimento de marcadores da infecção VIH7.
Entre 1999 a 2005,
e no âmbito da aplicação de técnicas de PCR DNA para o diagnóstico da
transmissão mãe-filho do VIH-1 e VIH-2, foram recebidas no Laboratório de
Referência da SIDA, cerca de 5800 amostras de sangue, provenientes de
diferentes Instituições de Saúde Nacionais. Estas amostras correspondem ao
estudo de 1450 crianças em risco de infecção VIH (em média 207 crianças/ano) e
respectivas mães.
OBJECTIVO
Determinar a
evolução das taxas de transmissão do VIH-1 e VIH-2 durante um período de sete anos
(1999 to 2005), de forma a avaliar a situação epidemiológica após a
implementação nacional das medidas terapêuticas e clínicas de prevenção da
transmissão mãe-filho do Vírus da Imunodeficiência Humana.
MATERIAL E MÉTODOS
Caracterização da população
em estudo:
Entre Janeiro de
1999 a Dezembro de 2005 e, em acordo com o algoritmo para diagnóstico da
Transmissão mãe-filho seguido no laboratório, foram recebidas 5800 amostras,
correspondentes a 1450 recém-nascidos e respectivas mães infectadas pelo VIH,
provenientes de 28 Instituições de Saúde (Maternidades e Hospitais) das regiões
Centro e Sul de Portugal (Tabela 1).
Foram analisados os dados demográficos e clínicos disponibilizados, incluindo a
informação sobre o cumprimento das estratégias de prevenção (sim/não) da
transmissão mãe-filho. A taxa anual de transmissão do VIH foi determinada
atendendo ao ano de nascimento das crianças em estudo.
Tabela 1 – Proveniência das amostras no período de
estudo.

Periodicidade
das colheitas, algoritmo laboratorial e
critérios de interpretação:
a) Na maioria dos recém-nascidos, a primeira
amostra de sangue foi colhida 48 horas após nascimento e recebida no laboratório
simultaneamente com amostra de sangue materno. A cronologia das colheitas
subsequentes, dependente da planificação e aderência às consultas, foi para a
maioria dos casos a seguinte: a 2ª amostra colhida entre o 1º e 2º mês de vida, a 3ª amostra entre o 2º e
4º mês de vida e a 4ª amostra próximo do 6º mês de vida da criança.
b) O DNA foi
extraído a partir de células do sangue periférico por colunas QIAamp DNA blood Midi kit (Qiagen) usando
o procedimento recomendado pelo fabricante.
c) A detecção de
DNA proviral do VIH-1 e/ou VIH-2 foi efectuada utilizando uma reacção in-house de nested-PCR com primers
específicos para a região pol e/ouLTR do genoma do VIH-1 e VIH-2. Os primers e as condições de amplificação utilizados
foram os referidos na literatura10,11,12. Controlos negativos e positivos
foram incluídos em todas as séries de PCR efectuadas, tendo sido seguidas as
linhas de orientação e os procedimentos práticos no sentido de evitar
contaminações.
d) Os produtos
foram visualizados em gel de agarose a 1,6% contrastado em brometo de etídio
(0,5mg/ml).
e) O diagnóstico
de infecção na criança foi confirmado através de resultados positivos em duas
amostras consecutivas. Resultados consistentemente negativos, até aos seis
meses de vida da criança em estudo, indicaram não ter ocorrido transmissão do
vírus.
RESULTADOS
- Do total de 1450 crianças seguidas
laboratorialmente, 1312 estavam em risco de infecção por VIH-1, 132 por
VIH-2 e 6 por ambos os vírus. A transmissão vertical foi confirmada em 47
casos para o VIH-1 e em 2 casos para o VIH-2 (Figura 1). A taxa global de transmissão mãe-filho do VIH
encontrada foi de 3,4% (Tabela 2).

Figura 1 – Número de casos de transmissão mãe-filho do VIH
Tabela 2- Total de crianças em risco para
VIH-1 e/ou VIH-2.

*- Criança infectada por VIH-1.
- Durante o período em estudo foi
observado um decréscimo significativo das proporções de transmissão
mãe-filho do VIH, alcançando no ano de 2005 um valor mínimo de 0,4% (Figura 2) ao qual foiassociado uma percentagem máxima
de cumprimento das estratégias de prevenção que atingiu 83,1% (Figura 3).

Figura 2 –
Proporção anual de casos de Transmissão Vertical do VIH

Figura 3 – Distribuição percentual
de mães VIH-1 atendendo à prevenção
- A maioria das crianças verticalmente infectadas
(77,6%, n=38) nasceram de mães que não cumpriram medidas de prevenção
durante a gravidez (Figura 4).A transmissão mãe-filho do VIH
ocorreu em 10,6% dos casos em que não foram seguidas medidas de prevenção
e em apenas 0,8% dos casos em que essas medidas foram cumpridas. Uma
associação estatisticamente significativa foi observada entre as taxas de
transmissão do VIH e a falta de prevenção (T. exacto de Fisher, p<0.0001) (Figura 5).

Figura 4 – Distribuição das crianças infectadas com VIH

Figura 5 – Distribuição do total dos casos estudados atendendo à prevenção
- Um diagnóstico feito antes do 7º dia
de vida da criança foi conseguido em 22 (64,7%) dos 34 recém-nascidos cuja
primeira amostra foi colhida no período recomendado. No entanto,
independentemente da altura da primeira colheita, o diagnóstico da
infecção VIH foi realizado numa primeira amostra em 36 (73,5%) do total
das 49 crianças infectadas.
- Não foi observada associação entre a
transmissão do VIH e o género das crianças infectadas (Figura 6).

Figura 6 – Distribuição de crianças infectadas com VIH por
género
- Relativamente à prevenção da
transmissão mãe-filho do VIH-2, os resultados revelaram uma elevada
percentagem de mães que não cumpriram qualquer medida de prevenção (Figura 7).

Figura 7 – Distribuição percentual dos casos de mães
VIH-2 atendendo à prevenção
CONCLUSÃO
O algoritmo
utilizado no laboratório, baseado em técnicas de PCR para pesquisa de DNA
proviral mostrou ser eficiente para um diagnóstico precoce da transmissão mãe-filho
do VIH -1 e VIH-2 (inferior aos 2 meses de vida). Apenas em 3 casos (6,1%), o
diagnóstico da infecção foi efectuado entre os 2 e os 4 meses de vida,
correspondendo à terceira amostra da criança em estudo. Em apenas um caso,
ocorreu um diagnóstico tardio, aos 15 meses de vida da criança, tendo esta sido
seguida em protocolo até aos 4 meses de vida. Contudo, em análise retrospectiva
das 3 amostras enviadas ao laboratório (4 dias, 2 e 4 meses de vida), não foi
detectado nesse período um pico de antigénio a que pudesse corresponder uma
infecção e todas as determinações de RNA do VIH-1 foram indetectáveis nessas
amostras. Por outro lado, foi observada uma elevada sensibilidade da técnica, sendo
a proporção de insucesso na amplificação de amostras maternas dentro dos limites
esperados (inferior a 5%) e correspondendo na maioria a casos em terapia anti-retrovírica,
com duas ou mais drogas, valores indetectáveis de vírus em circulação
plasmática e com valores de CD4 superiores a 500 cél/mL
Durante o período de
estudo, foi observada uma irregular e baixa intervenção preventiva da
transmissão mãe-filho do VIH-2, comparativamente com a infecção VIH-1,
indicando a necessidade de definir estratégias nacionais de prevenção,
específicas para este tipo de vírus em circulação na população. Contudo, ocorreram
apenas dois casos de Transmissão Vertical do VIH-2, confirmando que neste
contexto a transmissão deste tipo de vírus é um acontecimento raro.
A globalidade dos
resultados revelou um decréscimo de transmissão do VIH associado a um aumento
do cumprimento das medidas de prevenção ao longo dos anos. Porém, continuam a
existir casos de mulheres grávidas cujo status
serológico para o VIH é desconhecido até à data do parto. Por isso sugere-se,
um reforço na implementação nacional do rastreio da infecção VIH, antes e
durante a gravidez, seguindo a directiva da Direcção-Geral da Saúde (circular
normativa Nº1/DSMIA) que será um caminho importante para uma intervenção eficaz
na redução da transmissão mãe-filho do VIH no país.
APÊNDICE
Profissionais de Saúde e Instituições que
colaboraram no protocolo laboratorial para o estudo da transmissão mãe-filho do
Vírus da Imunodeficiência Humana:
J.
Castela, A. Birne, J. Nona (Maternidade Alfredo da Costa); C. Neves (Hospital
Dr Fernando da Fonseca); M. Pinheiro, A. Mouzinho, A. F. Prata (Hospital de
Santa Maria); E. Reis, M. Tuna (Hospital São Francisco Xavier); I. Soares, G.
Caldas (Hospital Garcia de Orta); M. Fialho, A. M. Martins (Hospital Conde
Castro Guimarães); H. Loreto (Hospital Distrital de Torres Vedras) [LISBOA]. L. Caturra (Hospital São Bernardo); T. Ferreira, L. Cabrita (Hospital
Nossa Senhora do Rosário); [SETÚBAL]. V. Cardoso, A. Silva
Coelho (Maternidade Bissaya Barreto); M. Branco, V. Martins (Maternidade Daniel
de Matos); M. G. Rocha (Hospital Pediátrico de Coimbra); L. Martins (Hospital
Distrital da Figueira da Foz); [COIMBRA]. M. J. Virtuoso, T.
Campos (Hospital Distrital de Faro); [FARO]. E. Oliveira (Hospital
Distrital de Santarém); M. A. Ferreira (Hospital Doutor Manoel Constâncio); P.
F. Silva (Hospital Rainha Santa Isabel); P. Moreira (Hospital Distrital de
Tomar) [SANTARÉM]. M. M. Flores (Hospital de
Aveiro); [AVEIRO]. V. Inês (Hospital
Doutor José Maria Grande) [PORTALEGRE]. J. Agro (Hospital Santo
André); J. P. Luis, F. Rebelo (Hospital das Caldas da Rainha) [LEIRIA]. A. João (Centro Hospitalar de Vila Nova de Gaia); [PORTO]. F. Ferreira (Hospital
José Joaquim Fernandes) [BEJA]. F. Dinis (Hospital
Espírito Santo) [ÉVORA].
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