INTRODUÇÃO
Sair com vários
homens, não escolher o parceiro, cobrar pelos serviços,
expor a perda da virgindade, entre outros fatores, faz da profissão
“garota de programa” uma realidade de vida que, em pleno
século XXI, expõe ao preconceito e discriminação.
Considerando o
início da epidemia da AIDS, a categoria prostituta foi
incluída no rol dos “grupos de risco”, o que
contribuiu para a inserção das discussões sobre
a AIDS na pauta dos movimentos de prostitutas, a fim de desconstruir,
socialmente, o preconceito dirigido a essa categorial social,
motivando, inclusive, ações políticas no sentido
de legalizar a profissão e como forma de estratégia
para a redução dos agravos que contribuíam para
maior vulnerabilidade à AIDS (Guimarães &
Merchán-Hamann, 2005). Nessa direção, de acordo
com Guimarães e Merchán-Hamann (2005), o Programa
Nacional de DST/AIDS direcionou estratégias voltadas para as
profissionais do sexo, compreendendo aspectos como negociação
do uso do preservativo e disponibilização do mesmo,
apoio às associações de prostitutas e
Organizações Não-Governamentais (ONG`s) que
lidam com esses atores sociais.
A nomeação
“Profissional do Sexo” decorreu de uma ampla rede de
discussões ocorrida nos Encontros Nacionais das Prostitutas
(Moraes, 1996), sendo assim, tal categoria é compreendida como
pessoas que praticam sexo, de podo impessoal, tendo em vista um valor
em dinheiro e/ou qualquer outro bem. No Projeto de Lei do Deputado
Wigberto Tartuce, consta no Parágrafo 1º a seguinte
definição: “Considera-se profissional, para fins
desta Lei, aquele que, pessoalmente e mediante remuneração
ou vantagem, utilizando-se do próprio corpo, exerce o comércio
sexual”.
Atualmente, as
discussões sobre a legalização da prostituição,
enquanto profissão, está sendo posta por meio do
Projeto de Lei (PL) 98/2003 apresentado ao Congresso Nacional, de
autoria do até então deputado Fernando Gabeira,
objetivando assegurar as condições de remuneração
dos serviços prestados, bem como a garantia dos direitos
humanos das prostitutas (Guimarães & Merchán-Hamann,
2005). Desse modo, enquanto atividade econômica, tal exercício
profissional demanda a necessidade de se colocar o trabalho sexual na
pauta das discussões acerca dos direitos desses trabalhadores
e dessas trabalhadoras, discussões estas indissociáveis
dos aspectos relacionados aos direitos das mulheres e dos direitos
humanos (Bindman & Doezema, 1997).
No que diz respeito
à mulher Profissional do Sexo, vários estereótipos
são atribuídos, tais como: posturas e comportamentos
considerados imorais, analfabetas, de origem familiar
desestruturadas, negligentes com os filhos, pouco preocupadas com as
doenças sexualmente transmissíveis (DST`s), entre
outros (Morais, 1996). Todavia, pesquisa realizada por Oliveira,
Sousa e Ferreira (2006) com profissionais do sexo demonstrou a
existência de mulheres com escolaridade, atentas para o uso do
preservativo e cuidadoras dos seus filhos que, para algumas mulheres,
justificava sua entrada em tal atividade. De acordo com Gaspar
(1985), os estigmas referentes à mulher Profissional do Sexo
podem estar relacionados com uma perspectiva de comportamento
desviante de uma representação da mulher, construída
socialmente, centrada no tripé mãe-esposa-dona-de-casa.
Entretanto, há que se considerar que o fator econômico
apresenta-se, na maioria dos casos, como contribuinte para o ingresso
na profissão, seguido pelo fim do casamento e pelo abandono da
família (Espósito & Kahhale, 2006), associados à
dificuldade de integração no mercado de trabalho,
conforme apontado em pesquisa realizada pelo Ministério da
Saúde e Coordenação Nacional de DST e AIDS
(Síndrome da Imunodeficiência Adquirida), no âmbito
do Programa de Cooperação Técnica França-Brasil.
Além disso, a baixa escolaridade, acrescida da pobreza
financeira, apresentou-se como características do perfil de
mulheres profissionais do sexo, bem como uma expectativa, por parte
dessas mulheres, de que o seu trabalho é provisório
(Espósito & Kahhale, 2006), demonstrando a crença
de que esperam exercer outro tipo de atividade profissional, voltar
aos estudos e encontrar um parceiro para casar e constituir família
(Brasil, 1998).
Assim, verifica-se
que a prostituição é multidimensional por
inúmeras facetas, entre elas o momento social, histórico
e cultural contemporâneo, mas que ainda sofre grande influência
da construção sócio-histórica da
profissão, fato demonstrado pelo preconceito social, pela
violência sofrida pelos próprios parceiros e clientes,
sendo, inclusive, obrigadas a não utilizar o preservativo,
violando assim seu direito de proteção às
DST´s/AIDS. Segundo Espósito & Kahhale (2006), a
relação de poder que o cliente exerce sobre a
Profissional do Sexo pode, em parte, está relacionada às
leis de mercado da contemporaneidade, fazendo com que tais
profissionais sejam vistas como mercadorias, as quais devem
adequar-se às necessidades e exigências do consumidor,
diminuindo o poder de negociação do uso do preservativo
e aumentando a vulnerabilidade das Profissionais do Sexo. Ainda
segundo esses autores, os clientes remuneram com valor acima do
estabelecido a Profissional do Sexo que não utiliza o
preservativo, apresentando-se, para algumas delas como uma
possibilidade de maior ganho financeiro. Do contrário, a não
aceitação do não uso do preservativo por parte
delas implica, algumas vezes, a perda do cliente e da remuneração.
A impunidade
existente em relação aos autores das práticas
agressivas contribui, muitas vezes, para que a violência
apresente-se, na avaliação das próprias
profissionais do sexo, como maior risco vivenciado no cotidiano.
Ademais, “a presença de um estupro inicial é
também um fato recorrente nas histórias pessoais, sendo
muitas vezes responsável pelo ingresso na prostituição”
(Brasil, 1998). Desse modo, verificam-se os fatores cotidianos que
contribuem para que mulheres profissionais do sexo estejam
vulnerabilidade à AIDS. Por outro lado, segundo o Ministério
da Saúde do Brasil, no sistema público de saúde,
espaço institucional de prevenção às
DST`s, a atividade de Profissional do Sexo exercida por muitas
mulheres é tratada com invisibilidade (Brasil, 1998), tendo em
vista evitar a exposição pessoal ao possível
preconceito dos profissionais de saúde. Ocorre que, na maioria
das vezes, tais profissionais do sexo se auto-denominam como
empregadas, donas-de-casa, entre outras atividades, objetivando a
garantia de atendimento mais digno.
Assim, há
que se considerar que a garantia de um “acolhimento” de
qualidade do usuário pelo serviço de saúde é
perpassado por uma boa receptividade entre usuários e
profissionais de saúde, bem como abrange “a
resolutividade do serviço e a conveniência dos
agendamentos e procedimentos” (Espósito & Kahhale,
2006, p.337). Mediante o exposto, este trabalho teve por objetivo
apreender, situações de risco vivenciadas por
Profissionais do Sexo, em especial o preconceito e violação
dos direitos humanos.
Método
Participantes
Participaram do
estudo cinco mulheres Profissionais do Sexo, residentes na cidade de
João Pessoa, Paraíba, Brasil, sendo uma abordada no seu
ambiente de trabalho, três na Associação das
Profissionais do Sexo (APROS) e a outra na sua residência.
Instrumento
Para concretizar o
estudo, utilizou-se a pesquisa qualitativa tendo como instrumento um
entrevista semi-estruturada, contendo questões relacionadas ao
uso do preservativo, tratamento dos clientes, preconceito e
discriminação. A escolha por esse instrumento se deu
pela importância desse tipo de método para os estudos
interpretativos e a livre expressão como uma das ferramentas
mais valiosas quando se trata de analisar o preconceito, a violência
e estigmatização no exercício do trabalho da
profissional do sexo.
Procedimento
Inicialmente o
projeto foi enviado ao comitê de ética em pesquisa com
seres Humanos do Centro de Ciências da Saúde da
universidade Federal da Paraíba, Brasil, com o intuito de
averiguar os parâmetros éticos, tendo como base a
Resolução nº 196/96 e recebendo parecer favorável
para a realização da pesquisa, iniciou-se a aplicação
da mesma.
Resultados e
Discussão
A AIDS é um
dos principais problemas referentes à saúde pública
no Brasil. Como foi relatado anteriormenteom a mudança do
perfil da epidemia, que a partir da década de 90 começou
a ser marcada pela feminização, pauperização
e heterossexualização, a preocupação com
populações que apresentam risco social ou
vulnerabilidade tem se tornado cada vez mais presente (Ministério
da Saúde, 1999, 2001). O índice de incidência do
HIV tem aumentado entre as mulheres. As profissionais do sexo
apresentam características específicas que as fazem
necessitar de maior cuidado, devido à falta de acesso à
rede de atendimento social e, sobretudo pela exclusão na qual
as mesmas se encontram.
Nesse contexto, o
construto da violência contra as profissionais do sexo deve ser
considerado, visto estas serem alvo de um preconceito crescente, e
que é explicitado claramente nos seus discursos.
“Tem
cliente que queria obrigar. Mas quando o cliente chegava que querer
obrigar, chamava os homens da pousada. Por isso que eu nunca me
passei a sair, entrar no carro com um homem e ir pra outro, algum
canto desconhecido. Porque aqui perto, tem as pousadas, ai a gente
chama o proprietário; olhe, ele que me obrigar a isso e
aquilo” (M. 25 anos).
“Teve um
cliente que uma vez me pegou de quatro, bateu na minha cara e eu
desmaiei e quando eu acordei vi que ele trepou comigo sem camisinha”
(J. 30 anos).
Verifica-se,
portanto, que a violência
presente no trabalho sexual deve ser considerada, seja a violência
simbólica advinda da própria marginalização
seja a violência pura nas situações de assédio
sexual, estupro, espancamento, maus-tratos. Além da violência,
percebe-se através do discurso, que há vulnerabilidade
ao HIV, bem como à outras Doenças Sexualmente
Transmissíveis (DST´s)
No tocante, a
violência sexual contra a mulher é entendida neste tipo
de trabalho como a ação ou conduta em que ocorre o
controle e a subordinação da sexualidade da mulher e é
incorporada como constitutiva das regras que normatizam a prática
sexual. No conjunto das violências cometidas contra a mulher,
esse tipo de violência assume um significado especial, pois
quase sempre vem acompanhada de outras expressões.
Uma
das possíveis causas para a ocorrência desse tipo de
violência é o preconceito e a discriminação
social direcionada às Profissionais do Sexo.
“O
preconceito que eu acho que eu enfrentei foi... Uma vez eu fui fazer
umas compras aqui pra APROS. Fui na loja. A gente foi tirar a nota
fiscal, ai pediu pra menina: Olhe, coloque APROS, Associação
das Profissionais do Sexo da Paraíba. Ai a menina colocou...
Não queria colocar das profissionais do sexo não.
Colocou até profissinal do Sesc. Ai a gente ficou lá.
Ficamos lá. Profissional do sexo. Ai minha amiga perguntou: e
você não sabe o que é sexo não?! Pra a
menina. Ela não queria colocar sexo. Profissional do sexo (P.
28 anos).
“Tem homem
assim que depois que faz com a mulher ai fica dizendo: vocês
são mulher, desocupada, vão arrumar uma lavagem de
roupa, não sei o quê. Já aconteceu casos, assim,
com as meninas, de elas tá ali, esperando os clientes e os
caras passar: vão arrumar lavagem de roupa! Ai as meninas pega
e diz: Não. Eu já tenho a minha lavadeira. Eu não
preciso de arrumar lavagem de roupa não. Eu já pago pra
lavadeira lavar minhas roupas, porque eu vou arrumar lavagem de
roupa? (M. 25 anos).
A partir do
discursso acima, verifica-se que o cotidiano das profissionais do
sexo abrange
exclusão, violência, preconceito e estigmatização.
Como explicitado anteriormente, essa situação
específica também contribui para a vulnerabilidade a
infecções pelo HIV e demais agentes sexualmente
transmissíveis, visto algumas das entrevistadas relatarem atos
de violência por parte dos clientes e que estão
diretamente relacionados á violação dos direitos
humanos dessas mulheres.
“Teve uma
vez que o cliente me pediu para eu ficar de quatro e quando eu fiquei
ele tirou a camisinha, quando e vi e fui tentar parar, ele me deu um
tapa e disse que tava pagando e que tinha de ser como ele queria (P.
28 anos)”.
“...Eles
enganam na posição da gente ficar de quatro e na hora
de querer botar aí eles tiram pra gente num ver, só que
eles não me enganam porque eu boto a mão. Aí
eles dizem: tira a mão, tira a mão, e eu digo: não,
não. Boto a mão, pego por debaixo, faço qualquer
coisa mas eu não deixo ficar sem. Sem preservativo eu num
deixo não, de jeito nenhum” (Dalva,
30 anos).
“Teve
cliente que ficava jogando e esfregando dinheiro na minha cara.
Mostrando dinheiro assim, as vezes abanando. Queria humilhar mesmo e
dizer que o dinheiro tem mais valor que eu. Dizia que o dinheiro é
mais importante do que eu. A gente se sente muito mal, um bicho (P.
28 anos)”.
A utilização
do preservativo é considerada inconveniente para alguns
clientes, dado este que demonstra a irresponsabilidade de alguns
homens frente às DST´s/Aids. Contudo, observa-se que as
profissionais do sexo deixam evidente que não estão
dispostas a se arriscarem por algum trocado a mais, ou seja, a
negociação, a argumentação e o
convencimento é algo que vai se conquistando no decorrer da
sua “carreira”. Nesse sentido, as profissionais têm
consciência da importância e necessidade do uso do
preservativo, enquanto os clientes não.
A negociação
é um dado muito importante para a prevenção de
DST´s, pois, junto à questão mercadológica,
a relação assimétrica de poder entre o gênero
masculino e feminino também age como empecilho ao uso de
preservativo. Essa afirmação está relacionada
não somente às profissionais do sexo, mas às
mulheres de um modo geral (Espósito e Kahhale, 2006).
Contudo, em se
tratando do discursso acima, verifica-se que esta negociação
está sendo transformada em discriminação,
desrespeito e agressão física e psíquica. No
tocante, sente-se a necessidade de denunciar esse tipo de violência
e lutar pela cidadania, para além da prevenção à
Aids. Compreendendo que o universo da prostituição é
bastante diversificado e heterogêneo, tendo muitas vezes em
comum apenas à questão econômica, as
profissionais constituem um grupo específico dentro desse
universo.
Em virtude da
magnitude e da complexidade da violência sexual cometida contra
a mulher, sua prevenção requer ações
eficientes e capazes de impactar favoravelmente a realidade vivida
pela população profissionais do sexo. Neste sentido, os
direitos humanos podem tornar-se uma importante porta de entrada para
se abordar as situações de violência sexual,
devendo favorecer o acolhimento, incorporar dados sociais, encorajar
a notificação e estabelecer vínculos, de modo a
servir de referência para a mulher atendida. Todavia, isso
pressupõe uma intervenção profissional capaz de
recriar representações sociais ancoradas na autonomia
feminina e na garantia de direitos.
Os dados da pesquisa
com as profissionais do sexo apontam para importantes questões
relacionadas à vulnerabilidade laboral, que na maioria das
vezes está diretamente relacionada ao aspecto violência
e violação dos seus direitos.
No que concerne a
Aids, as mulheres entrevistadas demonstraram de maneira bastante
clara como lidam com a utilização do preservativo
atualmente, demonstrando que essa prática faz parte sem
contestação da sua vida profissional. Contudo, é
importante lembrar que a prevenção perpassa nesse
sentido, por dificuldades no que concerne a violência e
agressividade por parte dos parceiros, impedindo e burlando essas
mulheres do direito de proteção as DST´s, bem
como o direito a cidadania. A partir do exposto, verifica-se
portanto, que a importância de se voltar para essa população
é inquestionável.
Assim sendo, tais
resultados retratam um relevante problema social, visto que o
preconceito e a violência são aspectos que estão
diretamente relacionados com a violação dos direitos
humanos das profissionais do sexo.
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